Autor: Wagner Amodeo

 

A visão de Homem em Fromm Resenha realizada para o Curso de Formação em Psicanálise da SBPH

O presente trabalho foi elaborado a partir do artigo “O conceito frommiano do Homem” do Prof. Marcos Oliveira. Utilizaram-se outras referências de Erich Fromm indicadas ao final deste trabalho.

SOBRE O ARTIGO

O autor demonstra os principais conceitos de Erich Fromm sobre a concepção culturalista e humanista do homem. Através de citações de Fromm e de seus próprios comentários, busca contrapor, para esclarecer, as teorias de S. Freud e Fromm, sobre o homem em suas origens ontogênicas e filogênicas. Destacando que Erich Fromm não contradiz os princípios básicos da psicanálise, antes amplia o que Freud já vislumbrava em s

ua segunda tópica.

RESENHA

O artigo ressalta que apesar de Freud conjeturar a importância da cultura, da sociedade, na formação do homem (inclusive o conceito do “superego” é dependente dessa concepção), ele permanece atrelado a uma visão fisiologista e mecanicista, especialmente quanto à libido, fundamento de sua teoria psicanalista. Serão outros psicanalistas como Adler, e no caso em foco, Erich Fromm, que caberá uma revisão crítica e um redirecionamento dessas propostas iniciais. Fromm não negará a importância instintual, e pulsionais, dos desejos sexuais, e do mesmo modo, enfrentará o conceito chamado “desejo de morte” (Tanatos em oposição a Eros), entretanto fornecerá uma visão mais humanista e social a essas pulsões.

Fromm defende não existir qualidades boas ou más inatas no ser humano. Propõe, sim, existir uma agressividade instintual na natureza humana, condição de sobrevivência, mas será a aculturação a responsável pelo direcionamento desse instinto para o “bem” ou para o “mal”, ou seja, para um espírito construtivo ou destrutivo. Esse direcionamento estruturado forma um sistema orientacional que Fromm denominará como caráter biófilo ou necrófilo, respectivamente.

Essa estrutura de caráter é parcialmente fixa e formada na infância. O que implica deduzir que ainda poderá ser alterada, mesmo que não o seja totalmente.

A visão frommiana indica um ser, que ao desejar ser plenamente livre em seus instintos é contido por seu caráter. O homem é um ser situado, não “flutua livre”. Para Fromm, a liberdade é tomar consciência de sua contingência, é entender suas limitações e possibilidades de desenvolvimento apesar de parcialmente contido.

Se essa consciência inexiste, ele se frustra e ao estar frustrado se desumaniza, sente-se impotente e poderá desenvolver uma destrutividade compensatória. A consciência de seus limites é que o tornará humano e que lhe fornecerá forças para buscar outras formas de desenvolvimento, modos criativos e construtivos, individualmente e coletivamente.

Essa visão em Fromm que o distancia, sem se contrapor, as teorias freudianas. Retira, sem anular, a importância do instinto, que são as bases orgânicas, e releva as bases sociais na formação do caráter, em uma espécie de requalificação das pulsões.

Com isso será possível, mais do que qualquer outro pensador, estabelecer uma ponte de aproximação entre Freud e Marx. Tornar o homem consciente da história social pré-existente, de sua própria história individual e, simultaneamente, gerando condições para a transformação de uma história futura. Permite, a partir de um entendimento do indivíduo, incluir a compreensão da formação dos valores coletivos e abarcar igualmente o sentido contrário.

Defini-se essa visão humanista como sócio-biológica e abre-se o campo para uma possível sócio-análise.

A “cura” para a destrutividade compensatória será o desenvolvimento do potencial criativo e construtivo com muitas implicações nos sistemas educacionais dos núcleos familiares aos institucionais.

Esse ser consciente e criativo, buscando seu desenvolvimento e contribuindo ao bem-estar coletivo é o ser produtivo. Sempre que a sociedade, em especial a atual sociedade de consumo, embotar o desenvolvimento desse potencial criador e, portanto, também, a possibilidade da reflexão crítica, estará gerando situações neuróticas e destrutivas.

No dizer frommiano os homens, e a sociedade, estarão desumanizando-se e tornando-se seres autômatos, “coisificando-se”. A necessidade atual de constante ocupação no consumismo e nos entretenimentos demonstraria a demanda para não perceber a solidão existencial. Essa situação levará o homem a destruir-se, incluindo-se possíveis conflitos bélicos de grandes proporções (há de se lembrar o contexto da Guerra Fria de quando foram produzidas as principais reflexões de Fromm).

Fromm não descreve o ser humano como bom ou como mal intrinsecamente. Diz que todos possuem qualidades, ou momentos, de maior destrutividade ou construtividade, contudo pende para a possibilidade de uma sociedade mais cônscia e harmoniosa que inevitavelmente levaria a substituição de um caráter social necrófilo, atualmente preponderante, para outros valores mais construtivos que colaborariam para uma sociedade mais justa e harmoniosa.

Antes que essa posição possa ser taxada e diminuída com uma acusação de romântica e de exacerbada utopia na construção de um novo sistema social, ou de ser, ao contrário, uma posição pessimista que só vê manipulação e destrutividade na atual sociedade, será o próprio Fromm que indicará as possibilidades da “descoisificação” da vivência humana, tornando o homem potencialmente desenvolvido e capaz, portanto, de escrever a sua própria história, individualmente e coletivamente. Um homem capaz de decidir livremente.

Fromm pode ser um idealista com consciência da realidade, utópico não, pois demonstra as possibilidades reais dessa possível transformação. Pessimista nunca, pois todo humanista é necessariamente otimista, e indica os caminhos da construção desse homem através da construção de uma visão crítica, reflexiva, criativa, produtiva, onde a psicanálise passa a ser relevante protagonista na compreensão da individualidade, no autoconhecimento, concorre simultaneamente para a condição única e transformadora da sócio-análise.

Bibliografia consultada

FROMM, Erich. A descoberta do inconsciente social. Tradução: Lucia Helena Siqueira Barbosa. São Paulo: Ed. Manole, 1992.

—. Ter ou ser? 4ª. Tradução: Nathanael C. Caixeiro. Rio de Janeiro: Ed Guanabara, 1987.

OLIVEIRA, Marcos. “O conceito frommiano do Homem.” São Paulo: SBPH.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *