Resenha do Texto: “Novos Horizontes Epistemológicos Na Psicanálise”

Resenha feita pela aluna

Leonor Pajaro Grande Ferreira

 

Texto original escrito por Prof° Marcos Oliveira, março de 2008.

 

O autor é Filósofo, Psicanalista e Presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise Holística, autor de artigos e trabalhos de cunho acadêmico, desenvolvendo, ainda, atividades radiofônicas, em seu programa semanal “Encontro com a Vida”.

  O estudo intitulado “Novos Horizontes Epistemológicos na Psicanálise”, objeto da presente resenha, está estruturalmente constituído pelos seguintes itens: O Processo Ontogênico, Um Animal que Produz Cultura, O Processo Identitário, Estrutura ideofísica da Sociedade, As Antinomias Sociais e, ao final, Bibliografia utilizada para sua elaboração.

Há um encadeamento lógico entre esses itens, que parte da ontogenia ou ontogênese, importante processo de desenvolvimento e organização do ser humano, o qual é analisado, em seguida, em sua capacidade de produzir cultura, de transformar o meio ambiente em que vive e, simultaneamente, de se auto-transformar; na seqüência, o autor trata de como ocorre e se constitui o processo identitário, trabalhando conceitos importantes, especialmente o de filtros sociais e de inconsciente social, sendo este fundamental para a compreensão do item que se segue. Nele o autor trata da forma material, concreta na qual esse inconsciente social se expressa, ou seja, da estrutura ideofísica da sociedade. Concluindo este encadeamento que vai do particular ou individual para o geral ou coletivo, há uma interessante analogia entre parapraxia e antinomias sociais.

A pretensão maior do autor, por ele colocada como algo ambicioso e que se encontra expressamente formulada no parágrafo final, da parte introdutória de seu trabalho, é a de “averiguar como se dá o processo básico de aculturação do ser humano”. Para tanto, ele se utiliza de dados recentes extraídos da Filosofia, Sociologia, Antropologia e outras disciplinas humanas afins, de forma conjuntiva, tentando “ampliar o alcance das luzes pioneiras estabelecidas por Freud”. A pretensão do autor se justifica pela importância de que o sucesso no processo de aculturação se reveste, para a coesão e manutenção do sistema social, sua estabilidade e funcionalidade harmônicas. A aculturação é, pois, esse processo dinâmico que embora se desenvolva mais intensamente na infância e adolescência –aculturação primária e secundária-, implanta no indivíduo um sistema orientacional que perdura durante a vida toda. Em todos os itens mencionados, os respectivos conteúdos são expressos com muita lógica e clareza e as referências aos pensamento  de outros autores vêm sempre seguidas das citações textuais dos mesmos, extraídas das obras constantes da bibliobrafia usada, de modo a oferecer o necessário embasamento teórico para as afirmações feitas.

De igual maneira, as críticas e os questionamentos formulados pelo autor, encontram, também, sua fundamentação e apoio, nos fragmentos que ele oferece ao leitor ou estudante, para que se informe e, livremente, possa avaliar.

       Conquanto o ponto mais valorizado pelo autor seja o referente à aculturação, escolhi enfocar, mais intensamente, os itens que se referem, respectivamente, à Estrutura Ideofísica da Sociedade e às Antinomias Sociais, pelo que trazem de novo e interessante, no meu entender.

Começando pelo termo, Ideofísica, ele é utilizado pelo autor ao referir-se à estrutura ideofísica da sociedade, que designa os “aspectos físicos e concretos da estrutura social que abrigam, simbolicamente, as intenções sutis e imanifestas de determinadaconfiguração social”.  Também designa, todo o aparato sistêmico usado no ajustamento dos indivíduos, inclusive ajustadores e consequentes ajustados, que são condicionados a reconhecerem, de forma inconsciente, a topografia subliminar do poder. Esse reconhecimento os leva a uma adequação silenciosa e coercitiva, a um dado posicionamento social, por causa da ideofísica, que é a “exteriorização da vontade de potência”. Mais do que apenas uma coisa física, trata-se de algo organizado por uma subjetividade, a partir de idéias, para comunicar aos indivíduos

É feita uma interessante analogia entre a doença psicossomática, que pode se ma-nifestar no indivíduo, quando o inconsciente vaza na estrutura física, e a intenção inconsciente que se expressa e materializa na ideofísica. Os locais visíveis da sociedade, diz o autor, “são espelhos que refletem o nosso narcisismo grupal”, e acrescenta: “vemos na verdade um esboço topológico de nossa hierarquização estatutária”, porque os locais simbólicos são primeiramente hierárquicos: quem pode, quem não pode; quem legitimamente deve, quem não deve. O livre trânsito ou não, por exemplo, em dado lugar vai depender dessa estrutura ideofísica. Há formas de excluir simbolicamente, mas, isso é geralmente imanifesto ou pouco sentido pelo homem comum.