Autor: Professor Me. Marcos Oliveira

Do ponto de vista acumulativo a sociedade moderna vai muito bem. As formas rudimentares de produção, foram substituídas por novas formas de produção em massa. Daí, ser possível afirmar que nunca na história humana produzimos e consumimos tanto como em nossos dias.

Porém, do ponto de vista moral, tal evolução tecnológica para o consumo pode ser fortemente questionada, pois à medida que a sociedade consumista se enriquece de capital, vemos cada vez mais em seu seio o recrudescimento de manifestações de agressividade, inveja, ódio e racismo, para citar apenas alguns dos frutos colhidos em nossa época.

Paradoxalmente, mesmo com todo o capital que flui e é gerado, o ser humano parece estar cada vez mais longe do estado de felicidade prometido pelo nosso moderno e científico “estilo de vida”. Por que será que em meio a tanta riqueza e evolução científica o homem ainda não é feliz?

A própria pergunta traz embutida a resposta. Só podemos atingir a verdadeira felicidade, desenvolvendo nossas muitas qualidades humanas, quando aprendemos “ser” renunciamos a ânsia de “ter”, fazendo isto nos distanciamos do valor das coisas e aprendemos valorizar aquilo que é humano.

Dentro do regime consumista, todos são avaliados de acordo com suas posses, ilusoriamente “ter” é confundido com “ser”, assim o ajustado pensa que existir é sinônimo de possuir. Porém, é importante ressaltar que à vontade de possuir coisas materiais dentro da visão neurótica atual esconde um elemento muito importante e, justamente esse elemento é à base de grande parte de nossos desconfortos existenciais.

Ao comprar indiscriminadamente e consumir como um louco, o indivíduo tenta ser “amado” através do objeto comprado, no fundo o neurótico não compra meramente o “objeto”, compra mais a “carga de fantasia” projetada no objeto.

Para ilustrar o que quero dizer, ofereço um simples e direto exemplo: Se fossemos leiloar uma caneta normal quanto conseguiríamos arrecadar? Certamente não mais do que alguns centavos. E se tal caneta fosse anunciada como a caneta predileta usada pelo renomado e falecido cantor Elvis Presley? Após tal informação sem dúvida nenhuma uma quantia incomensuravelmente maior do que o valor de fato seria arrecadado. Nesse exemplo, a caneta é supervalorizada por ter pertencido a uma celebridade. Portanto, não é o objeto e sim a “carga de fantasia” projetada sobre ele que faz a diferença.

Ainda sobre o exemplo da caneta, a verdadeira razão pelas quais alguns dariam tudo para tê-la, aparece implícita, disfarçada de inofensiva excentricidade. Quem compra a caneta do cantor Elvis Presley, pensa inconscientemente comprar o próprio Elvis Presley, ou para sermos mais exatos, o que ele representa como símbolo Pop.

Como ídolo Pop tal cantor é muito desejado, e aquele que hipoteticamente viesse a possuir uma coisa desta celebridade, usufruiria (pelo menos no campo das fantasias internas) parte de seu prestígio e fama, seria amado em transferência por todos que veneram e consideram importante o famoso cantor.

No fundo, o comprador deseja fortemente ser desejado e amado por muitos, para conseguir isto, utiliza uma estratégia mercantilista que dá suporte a doce ilusão de existir a partir do desejo do outro. Na teoria de consumo a manipulação do “desejo” humano e sua conseqüente utilização com finalidades comerciais, configuram uma das razões básicas para o sucesso expansionista da sociedade de consumo.

Aquele que compra um bonito carro importado, certamente não o faz pelo seu valor utilitário, inconscientemente visa na verdade despertar o desejo alheio, pensa em ser amado e desejado através daquilo que possui materialmente.

Toda estrutura consumista do atual sistema de coisas fomenta em grande escala a ilusão de “ter” para ”ser”, e à medida que os indivíduos se enchem de mercadorias, vão ficando cada vez mais vazios no sentido existencial.

A mensagem implícita por trás das diversas propagandas do atual sistema de consumo é a de que, se o vivente consumir suas infinitas mercadorias, terá assim encontrado o antídoto perfeito para o seu tédio existencial. Tal oferta, na verdade, é um engodo, pois o estratagema do “sonho de consumo” só favorece os mecanismos de fuga pautados nos “deslocamentos” e “projeções livres” do indivíduo neurotizado.

Fica evidente que à vontade de consumir muitas vezes está além da racionalidade. Podemos dizer que, de forma generalizada, é o viciado quem faz o vício e não o vício o viciado. Nos diversos vícios e manias da modernidade, escondem-se projeções inconscientes que acabam por revestir, enganosamente, as fabulosas mercadorias do sistema. Quem toma um “banho de loja” num badalado shopping pode, na verdade, estar usando desse excesso de consumo como um meio de evitação para não realizar uma reforma no seu mundo interno; é mais fácil “trocar de camisa” do que trocar certos aspectos indesejáveis da personalidade. Ao mesmo tempo, ao ser visto comprando sente-se poderoso e, portanto, desejado pelos outros, assim, nega-se sentimentos internos de insignificância e de inferioridade, e, às expensas desses recursos fantasísticos, cria-se uma prazerosa ilusão de reconhecimento.

Certamente foi tal constatação, que fez Freud escrever:

 

“É impossível fugir à impressão de que as pessoas comumente empregam falsos padrões de avaliação, isto é, de que buscam poder, sucesso e riqueza para elas mesmas e os admiram nos outros, subestimando tudo aquilo que verdadeiramente tem valor na vida”. (Freud, 1974, p.73)

 

O neurótico tenta, pela via do consumo, existir e ser aceito como pessoa, pois suas compras não são utilitárias, mas sim uma manifestação da pobreza de seu universo interno, fator esse que lhe obriga constantemente a recorrer à riqueza e à opulência do mundo externo. Se o que comprou perde sua função como símbolo de status ou de investimento de seu capital, fica desesperado e, por vezes, muda drasticamente seus conceitos estéticos e empresariais. Uma consciência autoritária e invisível obriga o neurótico a se ajustar às modas e manias passageiras, cria internamente terríveis incertezas que acabam sendo usadas pelo sistema como armas de controle e manipulação ideológica.

Tentando fugir de suas dúvidas existenciais, o dominado acaba por comprar “certezas falsas”, o que o leva a um processo progressivo de desumanização e, por fim, o neurótico acaba sendo “coisificado” pelo sistema de consumo, tornando-se desta maneira, mais uma mera mercadoria da sociedade capitalista.

 

Prof. Marcos de Oliveira

 

Bibliografia

FREUD, Sigmund. O mal estar na civilização. Rio de Janeiro, Imago, 2002.

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