Autor: Leonor Pajaro Grande Ferreira

 

Há um encadeamento lógico entre esses itens, que parte da ontogenia ou ontogênese, importante processo de desenvolvimento e organização do ser humano, o qual é analisado, em seguida, em sua capacidade de produzir cultura, de transformar o meio ambiente em que vive e, simultaneamente, de se auto-transformar; na seqüência, o autor trata de como ocorre e se constitui o processo identitário, trabalhando conceitos importantes, especialmente o de filtros sociais e de inconsciente social, sendo este fundamental para a compreensão do item que se segue. Nele o autor trata da forma material, concreta na qual esse inconsciente social se expressa, ou seja, da estrutura ideofísica da sociedade. Concluindo este encadeamento que vai do particular ou individual para o geral ou coletivo, há uma interessante analogia entre parapraxia e antinomias sociais.

A pretensão maior do autor, por ele colocada como algo ambicioso e que se encontra expressamente formulada no parágrafo final, da parte introdutória de seu trabalho, é a de “averiguar como se dá o processo básico de aculturação do ser humano”. Para tanto, ele se utiliza de dados recentes extraídos da Filosofia, Sociologia, Antropologia e outras disciplinas humanas afins, de forma conjuntiva, tentando “ampliar o alcance das luzes pioneiras estabelecidas por Freud”.   A pretensão do autor se justifica pela importância de que o sucesso no processo de aculturação se reveste, para a coesão e manutenção do sistema social, sua estabilidade e funcionalidade harmônicas. A aculturação é, pois, esse processo dinâmico que embora se desenvolva mais intensamente na infância e adolescência –aculturação primária e secundária-, implanta no indivíduo um sistema orientacional que perdura durante a vida toda.     Em todos os itens mencionados, os respectivos conteúdos são expressos com muita lógica e clareza  e  as  referências  aos  pensamento  de  outros  autores  vêm  sempre  seguidas  das

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citações textuais dos mesmos, extraídas das obras constantes da bibliobrafia usada, de modo a oferecer o necessário embasamento teórico para as afirmações feitas.

De igual maneira, as críticas e os questionamentos formulados pelo autor, encontram, também, sua fundamentação e apoio, nos fragmentos que ele oferece ao leitor ou estudante, para que se informe e, livremente, possa avaliar.

Conquanto o ponto mais valorizado pelo autor seja o referente à aculturação, escolhi enfocar, mais intensamente, os itens que se referem, respectivamente, à Estrutura Ideofísica da Sociedade e às Antinomias Sociais, pelo que trazem de novo e interessante, no meu entender.

Começando pelo termo, Ideofísica, ele é utilizado pelo autor ao referir-se à estrutura ideofísica da sociedade, que designa os “aspectos físicos e concretos da estrutura social que abrigam, simbolicamente, as intenções sutis e imanifestas de determinada configuração social”.  Também designa, todo o aparato sistêmico usado no ajustamento dos indivíduos, inclusive  ajustadores e consequentes ajustados, que são condicionados a reconhecerem, de forma inconsciente, a topografia subliminar do poder. Esse reconhecimento os leva a uma adequação silenciosa e coercitiva, a um dado posicionamento social, por causa da ideofísica, que é a “exteriorização da vontade de potência”. Mais do que apenas uma coisa física, trata-se de algo organizado por uma subjetividade, a partir de idéias, para comunicar aos indivíduos

É feita uma interessante analogia entre a doença psicossomática, que pode se ma-nifestar no indivíduo, quando o inconsciente vaza na estrutura física, e a intenção inconsciente que se expressa e materializa na ideofísica. Os locais visíveis da sociedade, diz o autor, “são espelhos que refletem o nosso narcisismo grupal”, e acrescenta: “vemos na verdade um esboço topológico de nossa hierarquização estatutária”, porque os locais simbólicos são primeiramente hierárquicos: quem pode, quem não pode; quem legitimamente deve, quem não deve. O livre trânsito ou não, por exemplo, em dado lugar vai depender dessa estrutura ideofísica. Há formas de excluir simbolicamente, mas, isso é geralmente imanifesto ou pouco sentido pelo homem comum.

Como a racionalidade social é prisioneira da ânsia interna de domínio, a estratificação socioeconômica vai sendo imperceptivelmente moldada por uma gramática social, parcial, e a escrita social resultante é sempre “a palavra de quem domina” .

Todavia, a estrutura ideofísica não se faz presente meramente para comunicar. Ela tem também uma força modeladora que possibilita o ajustamento do indivíduo, de modo que  aceite a legitimidade que se pretende seja aceita e, só depois da aceitação daquela estrutura como  significativa  para  ele, é que terá a ação social adequada.

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Há, portanto, uma ação comunicativa, modeladora e criadora de limites, não percebida diretamente, sendo a escrita cultural, “sempre a palavra de quem domina”.

Neste processo, a obediência é de fundamental importância, é o princípio básico da ordem social e de sua manutenção, sendo, também, fruto da mencionada modelagem.

Em conseqüência disso tudo, o indivíduo comum não valora: passa , também, a aceitar como própria, a valoração que lhe é dada.                                                 .

Outro aspecto igualmente interessante a ser pontuado é o que se refere à idéia da parapraxia de Freud, aplicada ao social. Embora certa topografia estatutária tenha sido estabelecida  como mapa da racionalidade oficial, ela“ não está livre de um entorno contraditório” que, no dizer do autor, “age como margem dialética de novas racionalidades, prontas paranascer” .

Ao tratar das antinomias sociais, o autor coloca que o termo antinomia significa, etmo-logicamente, conflitos de leis. Ele foi utilizado por Kant para “referir-se ao conflito em que a razão se encontra consigo mesma por causa de sua forma peculiar de estabelecer certos procedimentos ca-tegoriais”.

Contradições entre discurso e prática social revelam a existência de pontos nervosos, de modo análogo aos atos falhos individuais. São “contradições sociais que podem ser lidas como verdadeiros atos falhos coletivos”. Para ele, tais atos, “escondem uma intencionalidade secreta que vaza como sintoma”. Esses atos não são tão falhos como se poderia supor, pois, “mascaradamente são muito bem sucedidos em perturbar a cadeia lógica de pensamentos”, são antíteses que podem conduzir à mudança, à elaboração de  uma nova síntese.
AS ANTINOMIAS SOCIAIS SÃO BASTANTE REVELADORAS DE INTENÇÕES INCONSCIENTES, PODENDO SER PERCEBIDAS NO PRÓPRIO DISCURSO OFICIAL  COMO: “BRECHAS JURÍDICAS, EQUÍVOCOS SOCIAIS, DESCASOS  POLI-TICOS”. EM  DISCURSOS  COMO  O  PROGRESSISTA,  POR EXEMPLO,  A ORDEM  É  COLOCADA COMO O MAIS IMPORTANTE PARA SE CHEGAR AO PROGRESSO. PORÉM, -ALGO DE PERTURBADOR SE EXTERIORIZA NO AMBI-ENTE  SOCIAL QUE PARECE  DESMENTIR O PROGRESSO, DESMONTAR A ORDEM. NA REALIDADE,  A  IDÉIA DE ORDEM E PROGRESSO É MAIS UMA FORMA DE DISCRIMINAR CLASSES DO QUE, PROPRIAMENTE, UM  PLANO IGUALITÁRIO, COMO  O  DISCURSO SUGERE. O QUE PODE  SER LIDO NAS ENTRELINHAS DAS CONTRADIÇÕES  É ORDEM PARA TODOS E PROGRESSO PARA ALGUNS, POIS, “ENQUANTO UMA MAIORIA DE DOMINADOS PERMANE-CE EM ORDEM,UMA MINORIA DE DOMINADORES USUFRUI, DE FORMA INVEJÁVEL, UM SUBSTANCIAL PROGRESSO” .
Buscando melhor explicitar a noção teórica de antinomia social, o autor se utiliza de um exemplo paradoxal que extrai da própria Constituição Brasileira. Nela está inscrito que “todos são iguais perante a lei”. Todavia, há setores da sociedade que são privilegiados por leis complementares, decretos, resoluções e outros expedientes normativos específicos,que asseguram  aos  seus  membros  prisão  em  regime diferenciado,  julgamento  por  tribunais

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especiais, reforma, aposentadoria compulsória e demais situações especiais. O autor entende  que  essa  antinomia  social  é  reveladora da circularidade da relação entre normas sociais e poder. Que, em sentido genérico, há uma lei para todos, mas, no sentido prático, o  corporativismo é quem vai criar  a  lei ou as exceções.  Se o indivíduo  não  tiver condição de intercâmbio com certos ambientes, ficará certamente excluído desse tratamento.

É apresentado, ainda, outro exemplo de antinomia social, bem familiar a todos nós, que é o da titulação de doutor a membros de determinadas categorias profissionais, mesmo sem que haja a correspondente formação acadêmica, inclusive, a integrantes de classes sociais mais abastadas ou socialmente mais valorizadas, em certas circunstâncias. A aceitação natural e indiscutível dessa forma de tratamento é considerada pelo autor como “ato de sujeição imposto informalmente às classes dominadas”. Tal titulação,  aparentemente inofensiva e despretenciosa, significa que o indivíduo em causa é detentor de certo status, goza de prerrogativas e privilégios que outro indivíduo não tem e que, de algum modo, se encontra ligado ao poder. .

Com relação à estabilidade institucional e a sua exteriorização topológica ideofísica, o pensamento do autor é de que são simplesmente ilusórias e “visam transformar as normas humanas em fatos naturais” . Com isso torna-se possível exercer maior e melhor controle sobre as massas e “à medida que o poder em exercício consegue naturalizar as normas sociais e as cosmovisões, não é preciso nem mesmo o uso da força direta, para exercer o domínio”: a força inercial dos dominadores, uma vez internalizada, pode se transformar em motivação para permanecer em um quietismo que o indivíduo acha natural. O autor ressalta que, “Quanto mais uma forma de poder naturaliza suas regras sociais, maior é a sua sustentação…” Existe uma instrumentalidade tão grande nisso tudo, que o individuo será até capaz de lutar, para defender aquele que o domina.

O autor concorda com Hobbes quando este diz que “a razão é impotente sem o medo e o terror”, pois, mesmo quando ela não consegue levar o individuo ao convencimento, ele acaba por aceitar dada situação, não porque seja racional, mas, por causa da força. Assim, “por meio da aceitação não crítica ou inconsciente, grande parte dos dominados justifica reativamentetudo aquilo que lhes é imposto”.

Para ele, há um “jogo quase infinito de intencionalidades conflitantes que se escondem por trás da pretensa unidade racional das chamadas sociedades civilizadas”. Em uma mesma sociedade coexistem diversas racionalidades e muitas linguagens. Embora o poder crie certa ilusão de um monolinguismo coletivo, “O que de fato existe é um plurilinguismo racional, a realidade social pode ser dita de diversas maneiras”.

Dentro de um contexto histórico e social específico, existem muitas classes e sub-culturas, que obrigam a fazer outras leituras, muito além da gramática social oficial.  Por isso,

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o autor alerta e recomenda: “a Psicanálise moderna precisa aprender a ouvir o silêncio dos excluídos que se torna audível no grande número de crises da modernidade e em todos os atos falhos sociaisque revelam formas lacunares ativas e perturbadoras”.

Assim como o que é reprimido, recalcado, em nível individual, tende a voltar perturbando a consciência, também em nível coletivo, “a intenção criminosa de exclusão, perpetrada pelas classes dominantes, retorna como perturbação da ordem social”.

O autor afirma que, estruturalmente, não podemos nos livrar de todas as antinomias sociais, e, como as diversas racionalidades existentes no conjunto social fomentam o seu dinamismo, ele entende que: “sempre existirá o embate de múltiplas intencionalidades divergentes”. Entretanto, uma leitura cuidadosa e profunda deste paradoxal fenômeno, poderá atenuar seus efeitos destrutivos.

Conquanto para o autor, os psicanalistas pareçam sofrer do mesmo mal dos filósofos, ou seja, psicanalisam muito o inconsciente, mas, não se propõem a mudá-lo de forma efetiva, fazendo uma análise social das causas que o afetam, seu trabalho se encerra com um posicionamento positivo e de certo modo esperançoso, na possibilidade de mudança de rumo da humanidade.

Assim, com tal disposição e, parafraseando Marx, ele afirma: “Os psicanalistas já interpretaram demais o inconsciente, cabe-nos agora, transformá-lo” .

Ao finalizar esta resenha devo dizer que, embora tenha me aprofundado em apenas parte do trabalho do autor e não a mais importante para ele, porém, no meu entender a mais original, o texto foi lido e estudado em sua totalidade. Isso me permite dizer que o objetivo do autor foi atingido. Ficou clara para o leitor/estudante a importância dada à “montagem” do ser humano e de como ela se processa; o papel e a importância da cultura nessa construção, através de seus agentes culturais primários, secundários e das instituições sociais, dos signos, símbolos e topologia ideofísica, entre tantos outros fatores.

Também ficou evidenciada a valiosa contribuição de ciências como a Filosofia, a Antropologia, a Sociologia e outras afins, para o entendimento da construção do sujeito humano, bem como, para levar o leitor/estudante a perceber que não é suficiente o estudo ou pratica de uma analise sob a ótica do Complexo de Édipo, como representação da Psicanálise Tradicional. É imprescindível avançar mais além!

Em que pese , indiscutível genialidade de Freud, ele não poderia ultrapassar o “máximo de consciência possível” de seu tempo e, como produto de um meio sócio-cultural e histórico livrar-se, de modo absoluto, da influência gnosiológica de sua época, ou seja, do predomínio de uma visão biologizante,  de um paradigma anatomofisiológico e evolucionista aplicado à natureza, ao pensamento, ao indivíduo e ao social.

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Mesmo assim, como o autor mostra em seu trabalho, Freud deu passos decisivos para o conhecimento da mente humana, ainda que de início defendesse teses que, atualmente, não mais se sustentam. Contextualizando o surgimento dessas teses, com o cuidado e responsa-bilidade devidos, o autor aponta e critica, entre outras, idéias como as ligadas à existência de um “inconsciente filogenético”, herdado pelo indivíduo, muito próximo do “inconsciente coletivo” de Jung, a universalização do Complexo de Édipo e a utilização do homem burguês de Viena e de seu tempo, como modelo para todo homem.

Concluo, assim, esta resenha com a citação de parte do fragmento apresentado pelo autor, na abertura de seu trabalho, que expressa bem seu pensamento, ao qual também me filio:

Para executarmos uma verdadeira Psicanálise do espírito humano, é necessário examinarmos profundamente o campo de formação de tal “espírito”, ou seja: a sociedade . O campo social é a área de conexão entre a comunicação e a ideação, portanto, foi nesse ambiente universal, de interação entre o individual e o coletivo, que a vontade se solidificou, como uma ponte entre o animal e o homem”. (grifo meu)

 

        “N O V O S   H O R I Z O N T E S

         E P I S T E M O L Ó G I C O S

           N A   P S I C A N Á L I S E

                                                           Resenha feita pela aluna

                                                                Leonor Pajaro Grande Ferreira

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