Autor: Prof. Me. Marcos de Oliveira

Numa terra distante, num tempo onde homens, mulheres e dragões disputavam um lugar ao sol, conta-se que uma intrigante história se deu. O núcleo desta história dramática envolvia um afamado caçador de dragões e o último dos dragões vivos daquela época mágica.

Estando diante do último dos dragões, o experiente caçador não foi capaz de dar-lhe um fim. O ser mitológico era colorido e belo, tão belo que pôde conquistar o bem-querer de seu inimigo natural. Apaixonado por esta extasiante e inusitada beleza, ao invés de matar o dragão, o caçador leva-o para sua casa. Estava decidido: além de preservar a vida desse ser mítico, iria morar junto com o mesmo até o seu último dia de vida.

Se a história ficasse congelada neste instante, teríamos o conhecido final romântico: “… e viveram felizes para sempre”, porém, o tom trágico deste conto se manifesta, quando, sem motivo aparente, o dragão acaba por comer seu distinto amante.

Um pouco antes de por fim à vida de seu companheiro, o dragão resolveu justificar com as seguintes palavras o seu ato:

– Perdoa-me pelo que te farei agora. Não te mato por falta de apego. Ao contrário disto, sinto-me muito apegado a ti. Porém, não posso negar a minha mais íntima natureza. Sou um dragão, por isso, propenso naturalmente a comer caçadores. Por seres um caçador, devo te devorar. Não posso ser infiel a minha natureza, meu destino é comer-te.

Um fim trágico, para uma história aparentemente tão bela!

Inventei este conto para ilustrar os caminhos habitualmente tortuosos da paixão.

Por meio da antagonia imaginária óbvia que existe entre um caçador e um perigoso e traiçoeiro dragão, intenciono ilustrar a abismal diferença entre o “amor” e a “paixão”.

O caçador do conto tornou-se infiel a si mesmo quando foi seduzido pela beleza hipnótica do dragão. Toda sua carência torna-se evidente na figura de seu amor inusitado pela fera. Por causa deste autoengano não foi capaz de discernir o perigo de sua paixão; morreu não por causa da índole da fera, mas sim, por desconhecer sua própria índole.

Análogo ao caçador de nossa história, o apaixonado é sempre um ser que se autodesconhece. Seu apego exagerado e normalmente repentino aos objetos de seu “amor”, não nasce da vontade simples e humana de querer compartilhar o melhor de sua vida com o outro, bem diferente disto, nasce do desespero de ver-se só.

Semelhante ao grande e notório caçador, que só conseguia ver-se como “grande”, na presença de um dragão, o apaixonado caça a vida inteira a figura dragoniana de seu amor idealizado.

Em quase duas décadas de atendimento psicanalítico em meu consultório, pude perceber como é forte a potência do autoengano de uma pessoa apaixonada.

O sujeito apaixonado praticamente “reconstrói” o objeto amoroso. Seus olhos na verdade, não enxergam uma pessoa, enxergam na realidade suas muitas ilusões projetadas numa superfície opaca; o apaixonado está enamorado pela sua própria capacidade de se autoenganar através do outro.

A beleza acachapante do amado é apenas uma desculpa para sua falta de amor próprio. Ao enxergar uma perfeição que parece preencher sua vida, esquiva-se de perceber seus muitos “vazios sentimentais”; finge amar “demais” o outro, para eclipsar sua real incapacidade de amar.

O colorido extasiante do dragão de nossa ilustração representa a figuração hiperbólica e multicolorida que o objeto amado ganha frente aos olhos do apaixonado, em sentido real, este colorido fulgurante do objeto não se dá pelas reais qualidades do objeto, na realidade são as muitas projeções do apaixonado, que “pavonizam” o objeto idealizado. É por isso que, por mais que apontemos os defeitos do “amado”, parece que o apaixonado mantém-se cego. Na realidade sua cegueira não ocorre pelo simples motivo de não poder ver, mas sim pelo motivo de ver apenas aquilo que está disposto a ver.

Infelizmente, como o objeto amado e desejado é apenas uma ilusão, as projeções colocadas sobre ele não se sustentam por muito tempo. Após tais projeções “despencarem” é comum o antigo objeto amado, passar a ser odiado, nesta fase do ódio, o apaixonado, contrariando sua forte propensão em autoenganar-se, começa a vislumbrar o objeto como verdadeiramente ele “é”.

Diferente do caminho mítico de heróis e dragões (sem falar das donzelas fúteis que esperam um salvador), o caminho do amor não pressupõe um cenário tão dramático. Todo verdadeiro amor é construído por pequenos detalhes. O amor é sempre uma condição mútua de crescimento dos amantes. Ama bem, aquele que reconhece o outro como um “meio” e não como um “fim” para sua realização pessoal.

O amor, diferente da paixão, mostra-se como um afeto que não ofusca a razão.

Quem ama, não precisa transformar “dragões” em “pombas”, escolhe olhar para a real natureza do amado; não pensa em converter magicamente um animal feroz em “bichinho de estimação” após o casamento. Ninguém muda a natureza de ninguém.

Nem a mais avassaladora paixão é capaz de alterar a real natureza dos amantes, no máximo, à custa de um entorpecimento passageiro, a paixão tem o poder de ocultar momentaneamente, aquilo que cedo ou tarde se revelará.

Assim, aprendamos olhar para as coisas como elas são no amor; não somos transmutadores da história do outro. Tornar-se fiel a sua própria história, consiste, antes de qualquer coisa, em matar o terrível dragão das expectativas exageradas em relação ao outro.

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