Autor: Prof. Me. Marcos de Oliveira

Desde os primórdios da psicanálise, a relação afetiva entre os primeiros cuidadores (pais) e a criança, fenômeno este considerado à base da formação do caráter, tem sido exaustivamente estudado e, Freud, o fundador desta ciência, desde seus primeiro trabalhos, salientou que existe uma estreita relação entre a sanidade mental e o tipo de relação afetiva vivenciada pela criança  em formação.

A transferência afetiva mútua entre pais e filhos, representa para a vida psíquica da criança o mesmo que o alimento representa para o corpo, assim, da mesma forma que a desnutrição coloca em risco o desenvolvimento do organismo debilitado, a vida mental sem a doação afetiva morre.

Mas afinal, em que consistiria essa enigmática e tão vital “doação afetiva”?

Em sentido básico, doár-se afetivamente significa, grosso modo, estar genuinamente interessado. Ao nos relacionarmos com nossos filhos, é fundamental uma integração emocional plena de nossa parte.

No início da vida mental existe uma relação emocional peculiar entre o infante e os que dele cuidam, chamamos tal estado de integração emocional de “empatia”, fenômeno que pode ser descrito como um tipo de “contágio emocional”.

Assim, o ambiente primário de formação modela o infante a partir de uma espécie de “comunicação emocional silenciosa”, por isso, tanto uma atitude favorável de acolhimento, como seu oposto, uma atitude desfavorável de desamparo, determinará certas linhas evolutivas da personalidade em formação.

Desta maneira, nossas crianças “conhecem” o tipo de cuidadores que somos, não pelas belas palavras que proferimos, tentando assim influenciá-las pedagogicamente, mas sim, pela verdade afetiva que transmitimos através de nossas atitudes emocionais mais íntimas, sendo estas, estados afetivos sutis, os quais, muitas vezes, são totalmente ignorados pelos pais e educadores.

Por isso, coisas que nem mesmo foram faladas de forma direta, são refletidas na criança.  A discordância oculta entre os pais, à falta de disposição afetiva em relação aos filhos (falta esta que é sentida muitas vezes como uma rejeição pela criança), desejos reprimidos oriundos de uma sexualidade mal resolvida do casal, entre outras dificuldades relacionais, acaba por produzir na criança um estado afetivo deletério, estado emocional negativo, que às vezes se manifesta por sinais objetivos de depressão e ansiedade.

Por outras palavras, grande parte da modelagem ambiental que a criança sofre é executada inconscientemente. Sem que nos apercebamos, nossas muitas incertezas e instabilidade emocional se transferem para os nossos filhos. Em grande parte das vezes, os distúrbios da infância são reflexos distorcidos de conflitos familiares mais amplos, de certa maneira, os filhos sempre serão “sintomas”, do que os pais foram afetivamente para eles.

A escola, por ser o ambiente de formação funcionalmente mais próximo do lar, é normalmente o palco de inúmeras manifestações sintomáticas; não é raro que educandos afetados por uma dinâmica familiar inadequada, manifestem diversas dificuldades interpessoais. Alguns desenvolvem, por causa de uma forte insegurança interna, normalmente originada de uma instabilidade familiar, uma atitude introvertida em relação aos professores e demais colegas. Como esses introvertidos perderam a confiança em seus cuidadores primários, e, a sua crença na estabilidade dos vínculos afetivos encontra-se abalada, essa desconfiança latente acaba por se deslocar para os outros. Infelizmente esta postura “subjetivamente fechada“ habitualmente culmina num ruidoso isolamento relacional.

Na linha oposta aos introvertidos, outras crianças afetadas tornam-se agressivas, e em alguns casos, até mesmo sádicas. Normalmente tal modelo é a repetição de um modelo familiar agressivo, mas em outros casos, os cuidadores primários não são propriamente agressivos, mas sim permissivos.       Neste caso, tais pais superprotegem mimando seus pequenos “anjinhos”.  Por serem fracos, os pais permissivos tornam-se incapazes de reprimir positivamente uma certa quantidade de agressividade inata de seus filhos.       Essas crianças super protegidas habitualmente encontram uma grande dificuldade em lidar com suas reais limitações e, como deslocamento defensivo, acabam por não reconhecer como positiva nenhuma autoridade limitadora de seus “super poderes”.

Poderíamos continuar a enumerar as infinitas possibilidades sintomáticas que nascem de uma dinâmica familiar enferma, porém, acreditamos que os aspectos abordados no presente artigo, são suficientes para ilustrar o quanto os distúrbios infantis estão imbricados aos inúmeros “conflitos ocultos” dos pais.  Às vezes o silêncio afetivo que é sentido no núcleo familiar, e, que causa dor psíquica ao afetado, é sintomaticamente substituído pela sonoridade despersonalizante das neuroses.  Daí o princípio, onde o amor cala, a doença fala.

É certo que essa nova consciência aumenta muitissimamente a nossa responsabilidade afetiva em relação aos nossos filhos, afinal, cobrar equilíbrio de nossos filhos, sem exigir o mesmo para nossas vidas, é uma forma de repetir inconsequentemente a quadra de Fernando Pessoa que diz: “Se eu pudesse te dizer / Aquilo que nunca te direi/ Tu poderias entender/ Aquilo que nem eu sei”.

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