Resenha do Capítulo IX A Psicanálise Culturalista
do livro (Re)Visitando Freud
Autor: Marcos de Oliveira Silva

Por:Maria Helena Rachid

Freud, em seus estudos sobre o indivíduo normal e o neurótico, apesar de haver demon-strado interesse em pesquisar as relações causais entre o indivíduo e a coletividade (atesta isso seu conceito de Superego), utilizou, apenas, o “modelo biológico reflexo” para explicar o surgimento do psiquismo e para entender o funcionamento do inconsciente.

Esse “reducionismo biologizante” é percebido nitidamente na teoria psicanalítica das pulsões, em que a pulsão é o instinto que se desnaturaliza e se transforma em elemento mental. Para Freud, nessa passagem do orgânico para o mental, inicia-se a estruturação da subjetividade humana. Por haver ignorado a influência do meio social na formação da “estrutura pulsional”, não compreendeu o papel da aculturação na formação do caráter do indivíduo.

Já, no culturalismo psicanalítico, dissidência do modelo freudiano, que incorporou conhecimentos da antropologia e da sociologia, as pulsões são moldadas a partir de uma orientação cultural específica e se direcionam inconscientemente a uma meta cultural.

Para os culturalistas, a criança só chega a ser sujeito pela aculturação e não pela evo-lução natural de algo inconsciente, que se torna consciente. A crença na “desnaturaliza-ção dos instintos” é a razão inicial do surgimento do culturalismo.

1. Alfred Adler e o Culturalismo

Alfred Adler, um dos primeiros discípulos a discordar formalmente de Freud, foi, também, o primeiro a demonstrar a importância das relações sociais na formação de nossa iden-tidade.

Minimizou a importância da libido sexual freudiana e considerou a sexualidade muito mais uma manifestação de um impulso insconsciente de poder, do que com objetivos pura-mente sexuais. Para ele, mais importante que a sexualidade da criança era a qualidade relacional vivida por ela em seu meio.

Para Adler, a origem dos complexos são sentimentos de inferioridade não superados no processo de maturação do ego, e não a repressão da libido. Daí a importante contribuição de Adler à psicanálise com o desenvolvimento do conceito de “complexo de inferioridade” – o excesso de mimo ou a falta de afeto geram comportamentos compensatórios anor-mais. Considerava, também, que a neurose e a psicose eram máscaras que encobriam sentimentos de inferioridade.

Em oposição a Freud, demonstrou que o ambiente emocional externo e as condições ma-teriais da criança influenciam determinantemente a formação de nossa subjetividade.

Adler foi influenciado pela visão de Karl Marx, por isso acreditava que as “representações ideativas eram um efeito colateral da materialidade ambiental que cercava o infante desde seu nascimento” e que a vida social é a base fundadora de nossas ideações. Para ele, o sujeito estrutura-se a partir da relação que tem com os objetos mundanos, que são signifi-cados valorativamente.

A partir dessa visão estruturalista, percebeu que nossas certezas e verdades não passam de “ficções condutoras” – sistemas orientacionais criados pelo próprio ser humano, que, muitas vezes, se prestam ao papel de ideologias de dominação.

Por sua percepção intuitiva à frente de seu tempo, desmentiu a crença da “inferioridade da mulher”, que, segundo ele, era apenas uma criação destinada à dominação. Demon-strou que diferença é apenas diferença e não inferioridade e que a “inveja do pênis”, con-cebida como inata por Freud, é uma crença de inferioridade gerada pela sociedade patri-arcal.

Adler reconheceu a existência de um instinto agressivo, que em essência era neutro, mas ajustado à cultura, podia se tornar uma ânsia de domínio ou vontade de poder – “volição existencial orientada culturalmente”.

2. O Culturalismo Psicanalítico

Em função da guerra e do nazismo, a maioria dos psicanalistas deixou a Europa e radicou-se nos Estados Unidos e Inglaterra, tornando-os os maiores centros psicanalíticos da época, que se desenvolveram independentemente um do outro.

Contribuíram para o surgimento do culturalismo o médico psiquiatra Harry Stacy Sullivan, o filósofo social Erich Fromm, o mais significativo, e a clínica geral Karen Horney.

3. Sullivan e sua Análise Interpessoal

Sullivan, que foi grandemente influenciado por Freud, entre outros brilhantes teóricos, não acreditava num “verdadeiro eu”, como essência pura, mas sim numa essência criada a partir da interação com nossa base social. Entendia a personalidade como “um padrão, relativamente constante, de situações interpessoais periódicas que caracterizavam a vida humana”. Para ele, só conseguimos estudar o “eu” a partir do comportamento interpes-soal.

Discordava da visão instintivista de Freud e acreditava que o indivíduo é a soma de suas relações interpessoais e sua identidade é fruto de variadas identificações e que, dentro de cada um, há um discurso composto por “várias vozes” assimiladas durante a vida.

Fundamentalmente, Sullivan acreditava no aspecto plural e inacabado da pessoa hu-mana, ou seja, somos construídos e colaboramos na construção dos demais. Como Adler, entendia que somos animais sociais e mesmo aspectos fisiológicos acabam por se adaptar aos modos socializados de funcionamento.

4. A Empatia no Processo de Aculturação

As metas do comportamento humano, para Sullivan, visam duas principais necessidades básicas do ser humano: a busca constante de satisfação (necessidades biológicas) e a busca consciente e inconsciente por segurança (natureza cultural). A busca por se-gurança está associada a pertencimento, a ser aceito e participar de algo maior.

Sullivan propõe a montagem empática do eu. A doutrinação da criança acontece empiri-camente de forma mais indireta do que direta. A empatia é uma abertura para a mod-elagem social – o que é aprovado causa bem-estar, o que é reprovado leva a inse-gurança. Ao se desenvolver, a criança será ensinada a se focar na prática do que suscita aprovação.

O que suscita reprovação é dissociado do campo mental consciente. A terapia serviria, então, para conscientizar o paciente de seus aspectos rejeitados. Como somos fruto da cultura, toda tentativa de mudar crenças gera ansiedade e corre-se o risco de substituir uma crença por outra.

5. Personificações

Personificação é a imagem que criamos de nós mesmos ou dos outros. Sullivan entendia personificação como um complexo de sentimentos, atitudes, ideias e sensações que cap-tamos em diferentes experiências interpessoais.

As relações interpessoais podem nos trazer satisfação e gerar personificação positiva de quem provoca a satisfação, ou podem gerar insatisfação e levarem a personificação neg-ativa de seu agente.

Uma criança bem cuidada pela mãe terá um sentimento de bem-estar, já o contato com uma mãe ansiosa, odiosa, desinteressada ou super protetora provocará sentimentos in-desejáveis que podem levar a criar personificações complexas, que abalarão o senso de segurança e provocarão aumento do nível da ansiedade de desamparo.

Segundo Sullivan, tanto as personificações boas, como as más, podem provocar “distor-ção paratática” (semelhante ao conceito freudiano de transferência). As imagens que carregamos internamente não correspondem necessariamente à realidade. Essas distor-ções ocorrem a partir de intenções que desconhecemos. Com o aumento do nível de an-siedade, produzimos imagens falsas e as projetamos nas pessoas, personificando ora “anjos”, ora “demônios”.

6. A Linguagem e o Eu

A linguagem é um sistema, que utiliza signos, fundamental para a comunicação humana. Além disso, a linguagem é instrumento do pensamento e permite abstrair, criar um uni-verso simbólico e todos os conceitos.

Para Sullivan, a linguagem é um fenômeno essencial na formação humana. Daí sua maior contribuição à psicanálise moderna: as relações sutis entre o eu e a linguagem.

Quando a criança é inserida no sistema línguístico, Sullivan diz que se inicia um fenômeno chamado autística, em que a criança aprende a pensar não a partir do sensível, mas, sim, a partir do “consenso”, por isso nosso conhecimento representa os elementos produzidos pelo nosso saber, que é sempre arbitrário.

Assim, a autística é um aprimoramento na atividade simbólica da criança pela educação. Por esse processo, ela vai percebendo que será reconhecida à medida que se curve aos padrões mais cultos de linguagem.

No início de sua vida, a criança tem atividades símbólicas mais pessoais, quanto mais é “adestrada” vai se “conformando” com a “realidade dos adultos”. Sua maior ou menor “conformação”, resultará em premiação ou castigo.

A experiência línguística vivenciada pela criança é uma experiência de aceitação. O modo sintático de experiência corresponde, para Sullivan, ao estágio em que a criança já conse-gue elaborar sínteses, já consegue entender e transmitir certos conceitos e valores. Essa é a razão pela qual torna-se um forte instrumento usado para diminuir e controlar a an-siedade, mas nem sempre esse recurso tem efeito. Sullivan concluiu que, sempre que a ansiedade é muito forte, há uma regressão ao modo paratático da experiência (anterior ao modo sintático), o que leva à desestruturação do plano lógico do indivíduo.

7. Uma Mulher muito Corajosa

Freud acreditava que a libido sexual era uma energia eminentemente masculina e que a angústia da castração no menino era positiva, pois ele superava o complexo de Édipo, enquanto que, na menina, provocava um sentimento de incompletude, que resultava na “inveja do pênis”. De certa forma, essa teoria apontava para a visão de que a masculini-dade era natural e a feminilidade uma decepcionante descoberta. Vários psicanalistas secundavam Freud nessa crença.

Karen Horney, corajosamente, questionou essa visão falocêntrica e, embora Adler já houvesse colocado em dúvida a constituição inata da “inveja do pênis”, foi ela quem sistematizou uma teoria contrária. Inicialmente, baseando-se em pressupostos biológicos, tentou provar que o que chamou de “feminilidade inata” não dependia do complexo de Édipo, mas a ligação da menina com o pai no Édipo era um desenvolvimento normal e lig-ado à “feminilidade inata”.

Mas a fundamentação biológica não foi suficiente para contraditar completamente a teoria da “inveja do pênis”. E, desesperadamente, em 1926, Horney contra argumentou que havia fantasias que indicavam uma “inveja masculina” do ventre.

Somente a partir de 1930, Karen Horney foi abandonando a fundamentação biológica para explicar alguns fatos psíquicos e reformulou suas teses a partir do paradigma cultur-alista.

Daí, aproximou-se das teses defendidas por Adler e passou a entender a “inveja do pênis” como uma inveja fálica em função dos privilégios do homem no sistema patriarcal.

Em um trecho de seu livro Novos Rumos na Psicanálise, Horney esclarece que “o desejo de ser um homem, como assinalou Alfred Adler, pode ser a expressão de um desejo de possuir aquelas qualidades ou privilégios que, na nossa cultura, são considerados como masculinos: força, coragem, independência, sucesso, liberdade sexual e direito de es-colher um companheiro.”

Considerando que, de fato, algumas mulheres demonstram uma inveja fálica, entende tra-tar-se de sintoma neurótico e não de um traço comum da constituição feminina.

Acredita, também, concordando com tese de Adler, que a inveja do pênis é construída culturalmente em função da discriminação que a mulher sofre, portanto,

querer ser homem é uma forma simbólica de mostrar que quer ser valorizada por ser hu-mana.

Horney aceita a tese de que algumas mulheres vinculam sua feminilidade a traços masoquistas, mas entende que isso não é característica de todas as mulheres e sim uma manifestação neurótica (“ser mãe é padecer no paraíso”).

A ligação biológica entre sexos opostos, na visão de Horney, é mediada por anseios cul-turais inconscientes. Então, pelas características da sociedade patriarcal, a mulher passou a supervalorizar o amor e acreditar que a única forma de realização era a materni-dade.

Com o amadurecimento de sua visão, Horney foi se aproximando ainda mais de Adler e, como ele, passou a entender a “meta masculina” como uma “ficção condutora”. Percebeu, também, que nossa tendência inconsciente de naturalizar o que é cultural, dá susten-tação a nossas neuroses.

8. As Bases Culturais das Neuroses

Horney, com a evolução de suas teorias, pôs em dúvida também as bases biológicas das neuroses. E, em seu livro A Personalidade Neurótica de nosso Tempo, apresenta a dis-tinção entre a maneira normal e a neurótica de reação. Para ela, as condições de vida em todas as culturas ocasionam medos de várias origens (perigos externos, relações sociais, oposição a tradições culturais). Todos vivenciam esses medos. O neurótico, no entanto, por circunstâncias específicas de sua vida, tem um medo mórbido e paralisante, atual-izado no “real”e não causado efetivamente por situações reais.

O indivíduo normal teme reativamente, o neurótico desenvolve medo irracional, compul-sivo, cujo conteúdo é uma mescla de sentimentos. O neurótico se perde em seu sofri-mento, se prende ao passado e chega a idealizar a morte.

Para Horney, o medo marca nosso contato com a existência e está ligado ao nosso ato racional discriminativo. Por isso, para ela, enquanto uma pessoa normal mantém sua coesão egóica, face aos medos, o neurótico evolui em seu quadro destrutivo e não se desenvolve como ser humano.

Adler e Horney acreditavam que uma vida insatisfatória na infância influenciava grande-mente a configuração da personalidade neurótica.

Ainda sob influência da visão freudiana de inconsciente filogenético, Melanie Klein de-fende uma teoria sexual de característica inatista, em que algumas afecções psíquicas são causadas por um “saber vago e confuso” que preexiste na mente da criança. Essa concepção foi vivamente questionada por Adler.

É importante destacar que o culturalismo aprofundou tal discordância e superou deficiên-cias da tese adleriana, organizando uma competente meta-teoria, baseada no paradigma existencialista em substituição ao paradigma anatomo-fisiológico.

Nesse novo modelo “para o indivíduo “ser” necessariamente terá que “fazer”. Sua ação dialética no mundo produz conhecimento (fruto da cultura), que, por sua vez, produz o

produtor. No entanto, não há conhecimento isento e a intenção de todo conhecimento produzido é adequar a uma lei ou ordem ideal.

Para Horney e demais culturalistas, não é o complexo de Édipo de teor sexual que dá ori-gem à neurose, mas sim circunstâncias desfavoráveis na vida da criança, ou seja, os tra-ços neuróticos não são herdados, mas sim construídos. Segundo Horney a causa das neuroses é a incapacidade dos pais de reconhecerem e atenderem as necessidades das crianças.

Pelo exposto fica claro que o psicanalista moderno precisa ampliar sua visão sobre seus pacientes, levando em conta aspectos relacionais como dinâmica familiar, relacionamen-tos profissionais e afetivos e crenças e não focar, exclusivamente, na “corporeidade pul-sional”.

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