Autor: Prof. Me. Marcos de Oliveira

 

Nossa tarefa principal é dar nascimento a nós mesmos. (Erich Fromm)

 

Afinal de contas, passado mais de cem anos do nascimento de Fromm, por que a sua vasta obra literária, continua a nos provocar e a nos seduzir? Ainda mais, o que existe de tão importante no centro de tal obra, que justificaria recorrentes investigações modernas, em torno de tal construção epistêmica?

Podemos começar dizendo que, poucos autores, dentro e fora da seara psicanalítica, empreenderam de forma tão aprofundada, um amplo e genuíno diagnóstico dos nossos variados e quase infinitos males sociais modernos.

Fromm conseguiu as expensas de sua genialidade, montar uma coerente e sólida teoria crítica de nossa neurótica vivência social contemporânea.

Sua habilidade em nos seduzir e ao mesmo tempo nos provocar é fruto de um dom avassalador que consiste em apresentar de forma simples, idéias complexas e por vezes ambíguas.

Ao leitor atento, logo fica evidente sua enorme capacidade em sintetizar e sistematizar uma gama gigantesca de idéias e conceitos que, normalmente aparecem em outros autores, de forma hermética e muitas vezes complicada.

É importante frisarmos que a forma simplificada de Fromm nos apresentar suas interessantes teorias, não deve ser de forma alguma confundida com uma “superficialidade literária”, bem ao contrário disso, em suas muitas formulações inovadoras, Fromm deixa vazar sua enorme erudição e capacidade sintética, sem com isso, “complicar” aquilo que deve ser “explicado”.

A forte influência marxista que Fromm sofreu, desde o início de seu trabalho intelectual, fez com que ele ambicionasse uma psicanálise da “práxis”, ou seja, uma teoria prática que pudesse ser entendida e praticada por todos que honestamente se propusesse a entendê-la, seu interesse era escrever para “pessoas comuns”; todo o seu vasto conhecimento de sociologia, antropologia, história, psicanálise e filosofia, entre tantos outros temas por ele discutidos, se tornaram acessíveis a milhares de pessoas.

Fromm, ainda seduz exatamente por essa qualidade singular; ele conseguiu popularizar a psicanálise sem vulgarizá-la. Em sua obra podemos perceber uma profundidade que falta em outros teóricos da psicanálise, porém, em nenhum momento suas teorias se fecham num academicismo esotérico, seu estilo cativa por ser aberto e convidativo, Fromm sempre escreveu para ser entendido. Mas afinal de contas, qual é o centro nervoso de todas as suas teorias? Certamenteo homem.

Todo o edifício teórico frommiano se sustenta nos alicerces de uma filosofia humanística que privilegia o “homem” como centro nervoso de toda objetivação epistemológica psicanalítica. Para Fromm, o homem individual é uma porta de acesso ao “homem coletivo”, portanto, ao psicanalisarmos o homem particular, devemos nos ater aos vários fenômenos sociais e culturais que o formam, por isso, suas teorias não se restringem à análise parcial do sujeito individual, elas possibilitam um diagnóstico muito mais abrangente, ele foi o primeiro psicanalista a tentar organizar a audaciosa proposta de uma sócio-análise.

Ao estudar a superestrutura ideológica de nossa moderna sociedade capitalista e, toda base sócio-econômica derivada da mesma, Fromm utilizou potentemente todo instrumental psicanalítico para executar essa profunda e original investigação sócio-analítica.

Embora as primeiras tentativas de aproximação entre o freudismo e o marxismo tenham sido feitas por Adler e Reich, em nossa opinião, tal junção epistêmica só foi organizada como um corpo teórico coerente a partir da teorização frommiana.

Assim, frente à grandeza e profundidade evocada pelos escritos de Fromm, podemos dizer que esse grande teórico poderia muito bem ter existido à parte do movimento culturalista americano, no entanto, o movimento culturalista não seria o mesmo sem a participação deste ilustre psicanalista. Nas próximas linhas, intencionamos examinar panoramicamente o conceito que esse grande psicanalista faz a cerca do homem, acreditamos que tal estudo é muito oportuno, afinal, a grandeza literária desse autor, infelizmente, tem sido quase sempre, desconsiderada no Brasil.

 

O Conceito de Homem em Fromm

Não temos como interesse primário em nosso estudo, uma organização metódica e cronológica dos escritos frommianos, objetivamos de forma muito menos pretensiosa, apenas expor algumas das idéias principais desse autor.

Para começar bem nossa empreitada, analisaremos sucintamente o conceito que Fromm nos apresenta a respeito do homem.

Em seu livro “O Coração do Homem”, Fromm ao constatar que a maior parte da história humana “foi escrita com sangue” e, sua permanência como espécie “é uma história de violência contínua”, faz a seguinte pergunta: O homem – lobo ou cordeiro? (Fromm, 1974, p.17).

Ao analisar os dois lados da questão proposta, Fromm começa abordando o lado lobo do homem, com interesse de levar os seus leitores à reflexão ele escreveu o seguinte:

 

…Foi Hitler sozinho que exterminou milhões de judeus? Stalin sozinho exterminou milhões de inimigos políticos? Esses homens não estavam sós; tinham milhares de homens que matavam para eles, torturavam para eles, e faziam isso não só de bom grado como até com prazer. Não vemos a inumanidade do homem para com o homem em toda parte – na guerra implacável, no assassinato e estupro, na exploração desapiedada do fraco pelo forte, e no fato dos soluços dos torturados e sofredores tão freqüentemente terem caído em ouvidos surdos e corações empedernidos (Fromm, 1974, p. 18).

 

Depois de levantar essas inquietantes questões, Fromm fala da avaliação que alguns homens fizeram frente a tamanho horror, em destaque ele cita o filósofo político Hobbes, lemos o seguinte:

 

Todos esses fatos levaram pensadores como Hobbes a conclusão de que homo homini lupus (o homem é o lobo para o seu semelhante); levaram muitos de nós atualmente a admitir o homem como sendo mau e destruidor por natureza, um matador que só pode ser refreado em seu passatempo favorito pelo medo de matadores mais poderosos (Fromm, 1974, p.18).

 

Nesse fragmento Fromm aborda uma crença ainda muito generalizada; a crença de que de forma inata o homem é um ser destruidor e essencialmente mal.

Fromm nessa obra também registra o lado oposto desse pessimismo trágico, com o renascimento uma visão mais otimista surge, sobre isso ele escreve:…

 

“Pensadores do renascimento e posteriormente do iluminismo deram um passo drástico em sentido oposto. Os últimos alegaram que todo o mal no homem nada mais era que o resultado das circunstâncias, donde o homem não ter realmente como escolher. Mudem-se as circunstâncias que produzem o mal pensavam eles, e a bondade original do homem surgirá quase automaticamente” (Fromm, 1974, p.21).

 

Simetricamente oposta à visão pessimista de uma “maldade original”, alguns outros (como por exemplo, Rousseau com a sua teoria do bom selvagem inocente) defenderam uma “bondade original” como base essencial da natureza humana.

Fromm rejeita tanto a teoria da maldade original como também da bondade original. Para ele, tanto uma, como a outra, são fórmulas reducionistas que mais complicam que explicam.

Ele defende um instinto agressivo inato que é em essência “neutro”, porém, ao ser socializado esse instinto é direcionado culturalmente para o “bem” ou para o “mal”, sendo que essas inclinações morais serão determinadas e construídas dentro do processo conjuntivo de assimilação e aculturação.

Portanto, tanto o potencial destrutivo como o potencial construtivo, tem origem em uma mesma fonte, o que determina o uso de uma vertente mais do que outra, é a estrutura de caráter de determinado sujeito.

Para Fromm, a violência não é um ato puro e essencial, é na realidade uma forma de defesa orientada culturalmente e mascara muitas vezes um sentimento de impotência inconsciente, sobre isso podemos ler:

 

…O homem possui um potencial de violência destruidora e sádica (…) o coliseu em Roma, no qual milhares de pessoas impotentes obtinham seu prazer máximo ao ver homens sendo devorados por feras ou matando-se uns aos outros, é o grande monumento ao sadismo.(…) A violência compensatória é o resultado da vida não-vivida e deturpada, e seu resultado necessário. (…) A única cura para a destrutividade compensatória é o desenvolvimento do potencial criador do homem, da capacidade dele pra fazer uso produtivo de seus poderes humanos (…) a violência compensatória não se acha, como a violência reativa, a serviço da vida, é um sucedâneo patológico da vida, indicando a deformação e vacuidade da vida. Mas em sua própria negação da vida, ainda demonstra a necessidade do homem de estar vivo e de não ser um inválido (Fromm, 1974, pp. 34-35).

 

Na visão frommiana, mesmo a maldade e a destrutividade perversa, são sistemas orientacionais que propiciam certa visão de mundo a seus executores, o que está em jogo é uma ação teleológica determinada pelo caráter, com isso, ele rejeita totalmente a idéia de um “instinto de morte”, como base para a agressividade humana.

De acordo com Fromm, existem no homem a partir de seu ingresso na cultura, duas tendências volitivas básicas para suas ações existenciais: a tendência biófila e a tendência necrófila, ambas coexistem em todo ente humano. Ele explicou isso da seguinte maneira:

 

… Isto não quer dizer que uma pessoa seja forçosamente necrófila ou biófila de todo. Há algumas totalmente devotadas à morte, e estas são insanas. Há outras inteiramente devotadas à vida, e elas nos impressionam como tendo atingido a mais elevada meta que o homem é capaz. Na maioria, acham-se presentes às tendências biófilas e necrófilas, mas em várias misturas (Fromm, 1974, p.41).

 

O ser humano só existe “em mistura”, todos temos tendências necrófilas e biófilas, o que na verdade importa saber segundo Fromm, é qual das duas tendências se mostra mais forte em nossa configuração de caráter, essa propensão adquirida é que determina qual orientação básica que usaremos em nossa vivência cotidiana.

Mas afinal, o que determina um caráter necrófilo, ou seu oposto, o caráter biófilo?

Para responder essa pergunta difícil e complexa, Fromm apela para a descoberta freudiana, isso é feito assim:

 

Freud foi mais além de qualquer outro predecessor no atentar para a observação e análise das forças irracionais e inconscientes que determinam certas partes do comportamento humano. (…) Mostrou que esses fenômenos irracionais obedeciam a certas leis, podendo ser, por conseguinte, entendidos racionalmente. Ensinou-nos a compreender a linguagem dos sonhos e os sintomas somáticos, assim, como as irracionalidades do comportamento humano. Descobriu que estas irracionalidades, tanto quanto toda a estrutura do caráter de um indivíduo, eram, reações às influências exercidas pelo mundo exterior e particularmente às ocorridas durante a primeira infância (Fromm, 1978, p.18).

 

Com essas palavras fica evidente que Fromm acreditava que nossas ações e comportamentos dependiam de uma “estrutura”.  Para ele tal estrutura é o “caráter”, sendo que, como Freud, ele acreditava que tal base parcialmente fixa, formava-se na primeira infância. O que nós somos e como reagimos ao mundo, dependerá sempre dessa estrutura arcaica e invisível.

Com essa idéia estaria Fromm defendendo uma espécie de determinismo psíquico? E, se for essa noção defendida por ele, não seria isso pior que a idéia de um instinto moral?

Bem longe de defender um “determinismo psíquico” absoluto, o que seria de certa forma uma espécie de “fatalismo”, Fromm ao falar do homem, fala sempre de um ser livre para ser aquilo que decidiu ser, um ser sempre aberto para a liberdade. Em Fromm lemos:

 

“A existência humana tem início quando a falta de fixação das ações pelos instintos ultrapassa certo ponto; quando a adaptação à natureza perde seu caráter coercivo; quando o modo de agir não mais é estabelecido por mecanismos recebidos através da hereditariedade. Por outras palavras, a existência humana e a liberdade são desde o início inseparáveis. (…)” (Fromm, 1978, p.35).

 

Semelhante a Lacan, Fromm assinala que o homem só se torna verdadeiramente “homem” quando se desnaturaliza, ao se distanciar da natureza cria sua própria “natureza”; semelhante também aos filósofos existencialistas, ele está dizendo no texto supracitado que nossa essência é montada após sermos inseridos na existência.

O homem em Fromm é uma construção sempre inacabada, inicialmente tem as suas bases construídas pelos outros e perpetuamente se desconstruirá e se reconstruirá, ele permanece sempre como sistema aberto para muitas possibilidades do devir.

Quando o anseio humano de liberdade é frustrado, o homem se desumaniza, transforma-se num homúnculo, ou numa “coisa” sem vida produtiva. Sobre essa desumanização reativa ele escreveu:

 

… Embora o homem seja moldado pelas necessidades da estrutura econômica e social da sociedade, ele não é infinitamente adaptável. Não só existem certas necessidades fisiológicas que exigem imperiosamente sua satisfação, mas há, ainda, certas qualidades psicológicas e inerentes ao homem, que tem de ser atendidas e que provocam certas reações caso sejam frustradas. Quais são estas qualidades? A mais importante parece ser a tendência para crescer, para desenvolver e realizar potencialidades que o homem formou através da história – como, por exemplo, a faculdade de pensamento criador e crítico e a de variar as experiências emocionais e sensoriais. Cada uma dessas potencialidades possui seu dinamismo próprio; uma vez que se tenha formado ao longo da marcha de evolução, tendem a manifestar-se. Esta tendência pode ser suprimida e tolhida, mas a cada supressão correspondem novas reações, especialmente no aparecimento de impulsos destruidores e simbióticos. Assemelha-se, igualmente, que esta tendência geral para crescer – que é o equivalente psicológico da tendência biológica idêntica da origem a tendências específicas, tais como o anseio de liberdade e o ódio à opressão, uma vez que a certa liberdade é a condição fundamental para qualquer crescimento. Ainda mais o anseio de liberdade pode ser reprimido, pode desaparecer da consciência do indivíduo, mas mesmo assim não cessa de existir como potencialidade, e indica sua sobrevivência através do ódio, consciente ou não, de que sempre é acompanhada essa repressão (Fromm, 1978, pp. 226-227).

 

Em Fromm, o anseio de liberdade ganha status ontológico. Mesmo preso às suas necessidades materiais e situacionais, ele continua buscando a liberdade de ser sempre mais do que se é em determinado momento, como seu surgimento se deve estruturalmente há um “desajuste” da ordem natural, o homem é aquele que não aceitará nunca uma adaptação final para seu existir, sua natureza aberta aponta para todos os lados, por isso, está destinado a não aceitar nenhum destino pré-estabelecido.

E se por ventura o homem resolver abdicar de sua liberdade, e escolher o caminho da servidão a outrem?

Ao escolher não ser livre, fez sem saber, o uso de sua liberdade de escolha. Fromm, só reconhece como sadio, o homem que busca a liberdade, o contrário de tal busca é encarado como sinônimo de desequilíbrio psíquico.

A repressão do anseio de liberdade segundo Fromm, gera “impulso destruidores” e “simbióticos”, o dominado continua a odiar o dominador, mesmo que não tenha total consciência da amplitude de tal sentimento, e por sua vez o dominador, para sentir-se livre, fomentará a todo o momento a opressão; é o típico caso do carcereiro que fica preso aos cativos que ele vigia!

 

A Situação Humana

Na perspectiva frommiana o homem é sempre um ser “situado”, ele não flutua livre e solto, ao contrário disso, ele se torna verdadeiramente livre ao tomar consciência das bordas limitadoras de sua existência contingente.

O homem é o infeliz ser que leva dentro de si a consciência da morte, é o mensageiro de seu próprio agoro, é o caminhante que sabe que caminha em direção a sua morte, porém, mesmo crente no vaticínio certo de seu fim, tem que continuar a viver.

Embora Fromm não explore muito profundamente o aspecto angustiante do ato de existir, não seria um erro dizer que em alguns momentos ele bem que lembra um filósofo existencialista, embora tenhamos que admitir que ele, diferentemente dos citados, preserva em seus escritos um certo tom ingênuo e doce de otimismo messiânico.

Uma crítica a certas posturas teóricas de Fromm seria oportuna em uma análise mais profunda de suas idéias, porém, tal análise crítica foge dos limites de nosso presente trabalho. Para não desviarmos de nosso caminho, é necessário voltarmos ao texto frommiano e, fazendo isso, entenderemos como ele belamente descreve a situação humana, lemos:

 

… O nascimento do homem, tanto ontogênica quanto filogeneticamente, é um acontecimento negativo. Ele carece da adaptação instintiva a natureza, carece de vigor físico, é, ao nascer, o mais desamparado de todos os animais, e necessita de proteção durante muito mais tempo do que os demais. Perdeu a unidade com a natureza e não lhe foram dados os meios para viver uma nova existência fora da natureza. (…) A evolução do homem se baseia no fato de haver deixado a sua pátria original, a natureza, e jamais poder regressar a ela, jamais poder voltar a ser animal. Só há um caminho para ele: emergir completamente de sua pátria natural, encontrar uma nova pátria – criada por ele ao tornar o mundo humano e ao tornar-se humano também (Fromm,1974, p.37).

 

O homem é filho de uma negatividade, é isso que é dito em suma pelo texto acima. Dizendo isso de outra forma; o homem é filho de um buraco, de um abismo, nasceu quando se negou a morrer ajustado, perdeu sua unidade e acabou se achando na dualidade de viver como uma “rachadura”. Ao perder sua natureza animal, fabricou uma “outra natureza”. Sua natureza cultural é uma tampa, ou se preferirmos um tampão, uma rolha inventada para tampar o abismo das nossas incertezas lógicas, a mesma lógica que parimos ao nos depararmos com o estranho rosto da existência.

Ao criarmos a dialética do saber–que–não–sabia tampamos e, ao mesmo tempo, reforçamos a distância entre as partes; o homem é um ser inconformado, e, é o incomodo que o mantém e o faz evoluir. Essa natureza bipartida é descrita da seguinte forma por Fromm:

 

“O problema da existência do homem é, portanto, único em toda natureza: ele saiu da natureza por assim dizer, mas ainda está nela; é em parte divino e em parte animal; em parte infinito, em parte finito. A necessidade de encontrar soluções sempre renovadas para as contradições de sua existência, de encontrar formas cada vez mais elevadas de unidade com a natureza, com os seus próximos e consigo mesmo, é a fonte de todas as forças psíquicas motivadoras do homem, de todas as suas paixões, seus afetos e ansiedade” (Fromm, 1974, p.38).

 

No texto supracitado Fromm diz que o homem é um ser buscador. Movimenta-se atrás de respostas para a razão de sua existência; o que ele não percebe é que a “razão” foi algo que ele mesmo inventou, ele é o único animal que elabora perguntas sobre sua existência, o que o incomoda é que a natureza é muda, as únicas respostas que esse ser desamparado recebe, são aquelas que ele mesmo forjou em seu percurso histórico e existencial.

Em sua pretensão epistêmica o homem ensaia a pose de um deus, porém, a silhueta de uma divindade não é a sua forma final, bem ao contrário disso, morre como um animal qualquer. Não obstante até nisso a cultura tenta lhe enganar, ao descer à sepultura, embora o corpo se desfaça, o caixão pela sua arquitetura tenta ocultar o derrisório termo daquele que se apaga.

O homem busca entender aquilo que em plano mais profundo não pode ser entendido, e por vezes acaba preso na fina crosta dos saberes que o impedem de vivenciar a vida “como ela é”.

A verdadeira reflexão é aquela que não busca certezas, mas prepara o homem para conviver com a dúvida. A situação humana é angustiante, mas não é desesperadora. Refletir sobre nossa finitude é um ato de sabedoria não de loucura.

 

 

A Correlação Humana

Tanto para Fromm, como para os demais psicanalistas da escola culturalista, o nível relacional, bem como, a qualidade de afetos positivos que dispensamos ao nosso próximo, serve como indício de sanidade ou insanidade mental. Aquilo que oferecemos tanto qualitativavemente, como quantitativamente aos outros, define de certa maneira o que somos e o quanto somos afetivamente no mundo real.  Isso foi dito da seguinte maneira por Fromm:

 

… A necessidade mais profunda do homem é a necessidade de superar seu estado de separação, de deixar a prisão a sua solidão. O fracasso absoluto em alcançar tal objetivo significa a insanidade, porque o medo pânico do isolamento completo só pode ser superado por uma retirada tão radical do mundo exterior, que o sentimento de separação desaparece – porque o próprio mundo exterior, do qual se está separado, desaparece (Fromm, 2000, p.12).

 

Nesse texto Fromm mostra que o sentimento de solidão existencial que surgiu com a evolução hominal, marca sempre o vivente com um sentimento interno de “separação”, os vínculos que criamos com nossos semelhantes, desempenham um papel muito importante para o controle dessa “ansiedade existencial de separação”. Ao rejeitarmos o contato produtivo e necessário com o outro, de acordo com Fromm, estamos a um passo da loucura.

Porém, fora dessa situação drástica de fechamento na loucura, muitas vezes falseamos as nossas relações interpessoais, Fromm nos diz isso da seguinte maneira:

 

… O homem pode tentar tornar-se uno com o mundo pela submissão a uma pessoa, a um grupo, a uma instituição, a Deus. Dessa forma ele transcende a separação de sua existência individual por tornar-se parte de alguém ou de algo maior do que ele próprio, experimentando a identidade por intermédio do poder a que se tenha submetido. Outra possibilidade de superar a separação está na orientação oposta; o homem pode tentar unir-se ao mundo pelo poder sobre ele, por tornar os demais parte de si, e assim transcender a sua existência individual pela dominação. O elemento comum à submissão e à dominação é a natureza simbiótica da relação. As duas pessoas envolvidas perderam sua integridade e liberdade; vivem uma da outra e uma para a outra, satisfazendo o anelo de intimidade, porém sofrendo a falta de força interior e confiança própria, que requerem liberdade e independência, e, mais ainda, constantemente ameaçadas pela hostilidade consciente e inconsciente que nasce da relação simbiótica (Fromm, 1974, p. 43).

 

Na falta de genuínas relações humanas, o neurótico cria “vícios relacionais” que aplacam momentaneamente sua angústia. Como diz Fromm, em suas estratégias desesperadas pode se tornar totalmente submisso a uma vontade alheia a sua, ou ao contrário disso, tentar dominar a todos que o rodeiam. Segundo Fromm, tanto quem domina como quem é dominado, vive uma relação viciada chamada por ele de “simbiose macabra”.

Nessa relação desastrosa os envolvidos celebram um “conluio silencioso”, o que existe de fato é uma estranha e invisível “solidão a dois”. Embora os celebrantes se nutram mutuamente do vazio do outro para esquecer o seu próprio vazio, nem sempre tal recurso tem efeito, quando a união neurótica é por algum motivo questionada internamente ou externamente, o nível de ansiedade torna-se muitas vezes insuportável.

É importante ressaltarmos que a “simbiose macabra” de Fromm, nem sempre é estabelecida entre pessoas; a pessoa pode ficar dependente de uma instituição, de uma ideologia ou até mesmo de uma filosofia de vida, o importante é entendermos que tal movimento visa criar um falso senso identitário.

Fromm nos alerta que na atual sociedade capitalista é cada vez mais comum essa dependência neurótica.

Em seu livro “A Revolução da Esperança”, Fromm trabalha com o conceito desenvolvido por “Lewis Mumford” de “megamáquina”, conceito muito interessante que ilustra bem como o homem é instrumentalmente separado de seu semelhante, ele escreve:

 

A “megamáquina” é o sistema social totalmente organizado e homogêneo no qual a sociedade tem funções tais como uma máquina e os homens como as de suas peças. Pela total coordenação, pelo “constante aumento da ordem, porém, previsibilidade e, principalmente, controle”, esse tipo de organização alcançou resultados técnicos quase miraculosos nas antigas megamáquinas como as sociedades egípcias e babilônicas e encontrará sua expressão mais plena, com a ajuda da tecnologia moderna, no futuro da sociedade tecnológica (Fromm, 1975, p.46).

 

Nessa interessante noção teórica de megamáquina, após a revolução industrial, a própria sociedade transforma-se em uma imensa e potente máquina, já o homem seguindo um caminho inverso, se tornam cada vez mais impotente e condicionado ao mero papel de “parafuso” desta gigantesca engrenagem sistêmica.

Fromm aponta dois princípios básicos que sustentam a megamáquina, tais princípios seriam uma espécie de filosofia subliminar que rege as ações comportamentais de todos os ajustados:

 

O primeiro princípio é a máxima de que algo deve ser feito porque é tecnicamente possível fazê-lo. Se é possível fabricar armas nucleares, elas devem ser fabricadas, ainda que possam destruir-nos todos (…) uma vez aceito esse princípio de que algo deveria ser feito porque é tecnicamente viável, todos os outros valores são destronados e o desenvolvimento tecnológico passa a ser a base ética.O segundo princípio é o da eficiência e produção máximas. A exigência da eficiência máxima conduz, como conseqüência, a exigência da individualidade mínima. A máquina social trabalha mais eficazmente, assim se crê, se as pessoas são reduzidas a unidades puramente quantificáveis cuja personalidades podem ser expressas em cartões perfurados. Essas unidades podem ser mais facilmente administradas por regras burocráticas porque não criam dificuldades ou provocam atrito. A fim de se atingir esse resultado, os homens devem ser desindividualizados em vez de em si mesmos (Fromm, 1975 ,p. 49).

 

Esse predomínio da razão técnica em nossa sociedade moderna é chamada por Fromm de “tecnocracia”; debaixo dessa regência ideológica de acordo com Fromm, a estrutura lógica de pensamento torna-se viciada, visando apenas o lucro e a eficiência.

O homem que é essencialmente um ser afetivo, é ensinado a todo o momento a negar-se como humano, sua estrutura emocional é totalmente desconsiderada, aprendemos recorrentemente que nossas emoções devem se restringir ao nosso mundo íntimo, afinal, o mundo “real” e “objetivo”, deve visar apenas à manutenção das instituições que formam nosso belo “sistema de coisas”.

Como diz Fromm, o homem se desindividualiza. Ele é levado a ser apenas aquilo que a grande máquina sistêmica “é”. Por isso, ao aceitar essa desindividualização ele acaba se desumanizando, ou se preferirmos nominar esse processo em termos marxista: ele se “coisifica”.

Ele deixa de ser o homo sapiens para se tornar o homo consumens. Um ser alienado que consome como louco, ao mesmo tempo em que é consumido pela sua loucura de consumir cada vez mais.

Por razão de sua alienação, ao querer reduzir suas ações mundanas ao aspecto meramente de “uso”, ele próprio e cada vez mais usado como “massa de manobra” para a sustentação do engenhoso sistema capitalista.

À medida que o homem aumenta seu contato com as “coisas”, ele se afasta das pessoas. Evidentemente, tal afastamento acontece como uma estratégia para proteger tudo aquilo que foi levado a acumular; quanto mais ele acumula, mais distante torna-se das pessoas.

Preso em uma “redoma de vidro”, o homem moderno se torna cada vez mais passivo e amedrontado, as diversas síndromes modernas, nada mais são do que manifestações simbólicas e estereotipadas de nosso vazio e defensivo estilo de vida.

Essa passividade crônica e dirigida, acaba por recrudescer o sentimento existencial de tédio, por conseqüência, o homem é levado a ficar cada vez mais preso em uma vivência tediosa e sem sentido existencial. Fromm ressaltou da seguinte maneira esse fato:

 

O homem, como um dente de engrenagem da máquina de produção, torna-se uma coisa e deixa de ser humano. Ele passa seu tempo fazendo coisas nas quais não está interessado, com pessoas nas quais não está interessado, produzindo coisas nas quais não está interessado; e, quando não está produzindo, está consumindo. Ele é o eterno lactente de boca aberta, “absorvendo” sem esforço e sem atividade interior, tudo o que a indústria que impede o tédio (e produz o tédio) lhe impinge –cigarros, bebidas, filmes, televisão, esportes, conferências – limitado unicamente pelo que ele pode dar-se ao luxo deter. Mas a indústria que evita o tédio, isto é, a indústria que vende engenhocas, a indústria automobilística, a indústria cinematográfica, a televisão etc, só pode impedir que o tédio se torne consciente. Com efeito, elas aumentam o tédio da mesma forma que uma bebida salobra, tomada para matar a sede, aumenta a sede. Por mais inconsciente que seja o tédio, este não obstante, continua sendo tédio (Fromm, 1975, p.55).

 

Não há como evitar o tédio existencial, o que verdadeiramente importa é como lidamos com tal sentimento. Aquele que consome desesperadamente, apenas revela nessa desmedida, um desespero inconsciente que se manifesta como compulsão; na verdade, o tédio existencial quando não enfrentado, transforma-se em angústia neurótica. Portanto, embora o consumo possa mascarar temporariamente a consciência de tal angústia, é impossível o represamento de tal sentimento por muito tempo.

A sociedade capitalista mudou muito desde que surgiu e se solidificou após a revolução industrial; inquestionavelmente o nível de conforto e desenvolvimento tecnológico é espantoso, porém, somos bem pagos para sofrermos em silêncio nossas crises existenciais em confortáveis poltronas e diante de incrementadas telas multicoloridas que cada vez mais perdem o potente efeito hipnótico de outrora.

A padronização da miséria humana é descrita da seguinte forma por Fromm:

 

“Empregadores e trabalhadores fumam os mesmos cigarros e dirigem carros que parecem idênticos, muito embora os carros melhores andem de modo mais macio do que os mais baratos. Eles vêem os mesmos filmes e os mesmos programas de televisão, e suas mulheres usam os mesmos refrigeradores” (Fromm, 1975, p.48).

 

Nesse pequeno fragmento supracitado, Fromm faz referência ao seu conceito de “conformidade autômata”, noção teórica que fala de uma patronização generalizada que o homem sofre; segundo ele, esse mesmo conformismo é confundido com a tão almejada “igualdade social”. Na verdade, o que ocorre nessa generalização abusiva é um nivelamento por baixo, ou seja; ninguém é ninguém e nada vezes nada é o que somos, o que importa é o rótulo que portamos.

 

A Construção do Novo Homem

Como já enfocado anteriormente, Fromm vê o homem individual como fruto de um processo de construção, ao mesmo tempo que, em seu aspecto coletivo, ele é parte ativa nesse processo de construção. Assim, no âmbito de sua liberdade, o homem como construtor deve ter como objeto final de sua obra, o seu próprio caráter sempre melhorado.

Devemos humanizar cada vez mais nossas atitudes frente ao mundo, isso significa desenvolver uma postura afetiva correta em relação a tudo aquilo que nos cerca.

Em toda sua obra Erich Fromm, com seu notável humanismo, tentou fixar uma mensagem muito simples de ser entendida, porém, muito difícil de ser praticada: ao humanizarmos nossa relação com o mundo externo, estamos humanizando no fundo, toda nossa vivência interna.

É importante ressaltarmos que quando Fromm fala da reconstrução do “homem”, ele usa o termo “homem” não no sentido particular. Isso é facilmente sentido na conclusão de seu livro “A Sobrevivência da Humanidade”:

 

Podemos salvar-nos e podemos ajudar a humanidade num renascimento do espírito do humanismo, do individualismo e da transação anticolonialista da América. (…) Os homens de boa vontade, ou antes, todos os homens que amam a vida, devem formar uma frente única para a sobrevivência para a continuação da vida e da civilização. Com todo o progresso científico e técnico que conseguiu, o homem acabará vencendo o problema da fome e da pobreza e pode tentar soluções em sentidos diferentes. Há uma coisa que ele não pode – é continuar os preparativos para a guerra que desta vez, levará a catástrofe. Ainda é tempo de prevermos a etapa seguinte da evolução histórica, e modificarmos nossa atitude. Mas se não agirmos logo, perderemos a iniciativa e as circunstâncias, instituições e armas que criamos assumirão o controle da história e decidirão nosso destino (Fromm, 1969, pp. 221-222).

 

A “descoisificação” da vivência humana é a única alternativa para nossa sobrevivência, tanto em nível particular, como em nível coletivo.

Fromm, diferente de Freud, era um otimista. Sua mensagem sempre foi a da esperança. Às vezes seus escritos ganham mesmo um tom messiânico ou profético, como um bom visionário ele sempre vislumbrou um destino feliz para a humanidade.

Infelizmente quando a esperança não é justificada pela história ela é apenas uma ilusão. A história humana não está fechada a novas possibilidades e, nunca estará, enquanto existir o homem. Porém, aquilo que o homem decidir escrever neste momento singularmente dramático de sua história universal, talvez (frente às circunstâncias atuais), não poderá ser escrito de novo.

Prof. Me. Marcos de Oliveira

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

FROMM, Erich. A Revolução da Esperança. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
FROMM, Erich. A Arte de Amar. 1. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
FROMM, Erich. A Sobrevivência da Humanidade. 4.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1969.
FROMM, Erich. O Coração do Homem. 4. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.
FROMM, Erich. O Medo à Liberdade. 11. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
FROMM, Erich. Psicanálise da Sociedade Contemporânea. 7 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

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